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Segredo
de Estado
O serviço secreto do Itamaraty
Palhano
foi importante elo de ligação
entre Leonel Brizola e Fidel Castro.
O relatório 427, de 17 de outubro de 1966,
mostra que cartas, trocadas entre eles,
foram interceptadas pelos agentes do Ciex
ou tiveram seu conteúdo revelado por terceiros.
Na carta de Fidel, este aconselha Brizola
a desencadear a revolução armada
em território brasileiro,
como etapa inicial para a expulsão
do imperialismo americano do Brasil,
diz uma delas.
Em outra, consta que Palhano,
a pedido de Fidel, solicita a Brizola
o envio a Cuba de dois elementos da inteira confiança,
para coordenar, em Havana,
o I Congresso dos Povos da América Latina.
Claudio Dantas Sequeira
Correio Braziliense
Edição de 22/07/07
Infosearch:
Fidel Nuñez
Analista
Jefe de Buró
Latinoamérica
Dept de Investigaciones
La Nueva Cuba
Julio 27, 2007
Diplomatas brasileiros perseguiram opositores da ditadura por meio
de um poderoso sistema de inteligência, criado e operado pela
cúpula do Ministério das Relações Exteriores.
O Correio desvenda, a partir de hoje, um mistério de quatro
décadas
Um rígido código de honra, uma portaria ultra-secreta
e seguidas ações de desinformação garantiram
que até hoje permanecesse desconhecido da sociedade um dos
segredos mais bem guardados da ditadura: de 1966 até 1985,
o Itamaraty operou um poderoso serviço de inteligência,
tendo como modelos o MI6 britânico e sua versão norte-americana,
a CIA. Naquele período, os punhos de renda da diplomacia
do Barão de Rio Branco ganharam abotoaduras de chumbo. Diplomatas
de vários escalões foram recrutados para compor o
chamado Centro de Informações do Exterior (Ciex)
que agora, se sabe, foi a primeira agência criada sob o guarda-chuva
do Sistema Nacional de Informação (SNI), o aparato
de repressão política usado para sustentar o regime
militar.
O Correio obteve acesso exclusivo ao arquivo secreto do Ciex, um
acervo com mais de 20 mil páginas de informes produzidos
ao longo de 19 anos. Depois de quatro meses analisando cada documento,
seu grau de confiabilidade e nível de distribuição,
pode-se concluir que nunca houve refúgio seguro aos brasileiros
contrários ao golpe de 64. Banidos ou exilados, eles foram
monitorados a cada passo, conversa, transação ou viagem
no exterior. A malha de agentes e informantes operada pelo Itamaraty
se estendeu para além da América Latina, alcançando
o Velho Continente, a antiga União Soviética e o norte
da África.
Com verba reservada e subordinado à Secretaria Geral das
Relações Exteriores, o Ciex foi batizado oficialmente
de Assessoria de Documentação de Política Exterior,
ou simplesmente Adoc. Até 1975 funcionou de forma insuspeita
no gabinete 410, do 4º andar do Anexo I do Palácio do
Itamaraty. A placa com o número da sala foi retirada, e assim
permanece até hoje, confundindo quem busca a Divisão
de Promoção do Audiovisual, ali instalada desde 2006.
Toda essa parafernália de camuflagem visava evitar comoção
e críticas dentro do ministério, e resguardava a imagem
dos diplomatas perante a sociedade.
Verdade
A escassez de evidências da participação da
diplomacia brasileira na repressão fez crer a todos que o
Ministério das Relações Exteriores foi a reserva
moral da democracia, em pleno regime militar. Construiu-se, com
o silêncio, a imagem de diplomatas sem partidos ou tendências
ideológicas, incólumes aos vaivéns da política
e dedicados exclusivamente à defesa do interesse do Estado.
Mas não é bem assim. A cúpula do Itamaraty
se ajustou perfeitamente aos interesses do governo militar, e o
Ciex contribuiu de maneira decisiva para a localização
e detenção de muitos asilados.
De fato, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime,
o Correio descobriu 64 deles no arquivo secreto do Ciex (leia as
reportagens nas páginas 3,4 e 5). O serviço secreto,
além de localizar e identificar essas pessoas fora do país,
facilitava detalhes de seu regresso ao Brasil. Muitos documentos
lançam luz sobre os informantes infiltrados nos grupos de
resistência, fornecendo pistas ou até a identidade
dessas pessoas. O amplo registro das atividades políticas
desses asilados, o conhecimento de intimidades e de suas relações
pessoais em território estrangeiro municiaram as demais agências
da repressão com dados sumamente importantes para as sessões
de interrogatórios, reconhecidamente marcadas por torturas
que, certas vezes, derivaram em julgamentos sumários.
Dentre os brasileiros que foram alvo do Ciex estão lideranças
políticas, militares rebelados, guerrilheiros, estudantes
e pessoas comuns que se opunham à ditadura militar. Para
citar alguns exemplos, foram monitorados exaustivamente o ex-presidente
João Goulart e o ex-governador Leonel Brizola, os deputados
Miguel Arraes, Neiva Moreira e Márcio Moreira Alves. O ex-ministro
e fundador da UnB, Darcy Ribeiro. Também o ex-almirante Candido
Aragão e o ex-coronel Jefferson Cardim. Os intelectuais Antônio
Callado, Florestan Fernandes, Celso Furtado e Fernando Henrique
Cardoso. E até o ex-presidente liberal Jucelino Kubitschek.
Elite
A análise do arquivo do Ciex revela ainda que a perseguição
política da diplomacia não se restringia aos brasileiros.
Seus agentes também perseguiram os estrangeiros contrários
ao regime em seus próprios países, em flagrante violação
do direito internacional e do princípio de soberania
tão caro à tradição do Itamaraty. Também
foram alvos políticos, empresários e até diplomatas
de países socialistas ou comunistas em missão oficial
dentro do território brasileiro. Para o Ciex, a espionagem
não era uma atividade meramente operacional. Ela se inscrevia
num contexto político mais complexo e, geralmente, alheio
à compreensão da maioria dos agentes do SNI. Tal visão
era potencializada pela vasta cultura geral e a rígida hierarquia
que prescinde de uniformes e patentes próprias
aos diplomatas. Em seu profissionalismo de servidor público,
os membros que integraram o serviço secreto do Itamaraty
acreditavam ocupar um patamar superior ao dos demais espiões
da ditadura, uma verdadeira elite dentro do sistema de informação.
O conhecimento desse capítulo escondido da ditadura recoloca
a diplomacia junto aos militares no banco dos réus no julgamento
da História. Força uma revisão da memória
da guerra ideológica, inclusive em relação
aos próprios opositores da ditadura. Sobreviventes do período
são os responsáveis por construir a maior parte da
memória clandestina, seja através da reconstituição
de fatos ou da montagem de lembranças pessoais. De alguma
maneira, esses sobreviventes são vencedores, e como tal,
fazem prevalecer seu ponto de vista, elegem líderes e delatores,
relegando outros ao esquecimento. Parte do conteúdo dos informes
do Ciex, para preocupação dos vitoriosos, questiona
muitas versões que hoje são tidas como verdade absoluta.
As vítimas do CIEX
Claudio Dantas Sequeira
Arquivo secreto da CIA brasileira contém mais
de 8 mil informes. Documentos abasteceram as demais agências
do Sistema Nacional de Informações
Em uma pesquisa detalhada nos 8 mil informes que compõem
o arquivo secreto do Ciex, o Correio encontrou milhares de registros
de fatos que antecederam ou precederam a morte ou o desaparecimento
de 64 asilados brasileiros. Essas informações, que
ajudaram a selar o destino dos perseguidos, tinham origem em diferentes
fontes, como informantes infiltrados, agentes de serviços
de informação estrangeiros ou material apreendido
com subversivos. Tudo era processado pelos membros do Ciex, depois
classificado e encaminhado aos órgãos da repressão
interna.
Desses, os principais receptores de documentos foram SNI/AC, CIE,
Cisa, Cenimar, DSI/MRE, CI/DPF, além das 2ª secretarias
dos Estados Maiores das Forças Armadas (EME, EMAER e EMA).
Estes, por sua vez, analisavam as informações, as
cruzavam com outros dados e produziam novos informes, que serviriam
para a tomada de decisão das autoridades políticas
e policiais. Como parte do amplo organograma do aparato repressivo,
esses órgãos também construíram seus
próprios arquivos secretos e os mantêm a sete chaves.
A maior parte do arquivo do Ciex é composta por documentos
secretos, o segundo mais alto nível de classificação
existente. Também há informes ultra-secretos, os mais
protegidos, e confidenciais, o terceiro nível de classificação.
A reportagem elaborou uma síntese das referências encontradas
sobre os principais asilados brasileiros perseguidos pela ditadura.
A investigação tomou como base a lista de 380 vítimas
do regime militar encontrada no sítio www.desaparecidospoliticos.org.br.
Informações inéditas sobre a trajetória
dos desaparecidos e mortos podem servir às famílias
de pequeno alívio ante a dor que se alimenta da ausência
de explicações. Para os historiadores, é o
desafio de incorporar elementos que, por um lado, ampliam o conhecimento
acerca desse capítulo sombrio da recente História
brasileira. Por outro, lançam novos questionamentos sobre
o que já foi escrito.
É o caso, por exemplo, de Wânio José de Mattos,
preso em Santiago do Chile logo depois do golpe de Augusto Pinochet,
em 11 de setembro de 1973. Seus familiares passaram anos a fio sem
saber o que havia ocorrido ao asilado, até que o governo
chileno, em 1992, confirmou sua morte por "perionite"
no Estádio Nacional. O sofrimento da família poderia
ter sido amenizado pois o Itamaraty recebeu, em 31 de dezembro de
1973, o informe 656, que registra a morte de Wânio "ocorrida
em 16 de outubro" daquele ano. Anexo ao documento seguiu o
"certificado médico de defunción (falecimento)".
Mesmo sabendo, o ministério silenciou.
Os últimos passos do ex-capitão Carlos Lamarca, dirigente
da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) morto, também
ganham uma nova dimensão com a descoberta dos arquivos do
Ciex. O informe 304/70 fala de contatos seus com "um emissário
dos Tupamaros (guerrilha uruguaia)" no Acre, "em zona
entre Rio Branco e a fronteira boliviana", algo até
agora desconhecido. Pouco se sabia também da atuação
do ex-coronel Joaquim Pires Cerveira, desaparecido em 1973. Relegado
a um papel menos importante na memória da resistência
armada, Cerveira surge nos arquivos do Ciex como elemento de extrema
periculosidade.
Braço-direito de Leonel Brizola, Cerveira foi preso em 1970
com a dissolução da Frente de Libertação
Nacional. Em pouco tempo, seria eleito por Fidel Castro para liderar
nova tentativa de guerrilha rural no Brasil em 1971, segundo o informe
85. Já o relatório 469, de 1969, dá conta de
que a versão oficial para o assassinato do ex-deputado Carlos
Marighella, líder da Ação Libertadora Nacional
(ALN), teria sido forjada, no intuito de incriminar os frades dominicanos.
O informe 114/73 abre uma vertente inédita nas investigações
sobre o paradeiro James Allen Luz, da VAR-Palmares.
O status oficial de Allen é de desaparecido, mas não
estaria descartada a possibilidade de ele ter sido justiçado
por companheiros ou mesmo desmobilizado depois de colaborar com
militares, recebendo nova identidade. ``Não existe mais dúvida,
entre os asilados brasileiros em Santiago, de que o Cabo Anselmo
e James Allen Luz sejam agentes policiais, havendo contra Anselmo
``ordem de execução``, diz o documento.
Presos políticos libertados em troca do embaixador americano
Harles Elbrick, no final da década 60. Depois de banidos,
monitorados
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar
Maurício Grabois
David Capistrano da Costa
Flávio Carvalho Molina
Joaquim Câmara Ferreira
Iara Iavelberg
Tito de Alencar Lima
Francisco José de Oliveira
Vidas monitoradas pela diplomacia
Agentes do Centro de Informações do Exterior (Ciex)
fizeram devassa na vida pessoal dos principais líderes comunistas
no exílio. Registro cronológico traz informações
inéditas sobre trajetória dos perseguidos
Carlos Lamarca - Ex-militar, integrou VPR e MR-8 Morto
Um dos principais defensores da revolução armada,
Lamarca foi desde cedo acompanhado pelos serviços de informação
do regime militar. E o Ciex não ficou de fora. Já
em 13 de junho de 1969, o ex-capitão surge no informe 257
sobre sua presença no Rio de Janeiro, atuando integrado
no esquema de Carlos Marighella. Mais do que isso, traça
um histórico das atividades do subversivo, que
atuou como membro secreto da organização de
Marighella, para a qual executava pequenos desvios de
armas. Ao serem presos em São Paulo alguns elementos
de Marighela, os quais tinham tido contacto com Lamarca, este, temendo
ser delatado, decidiu-se a desertar, levando consigo todo o armamento
que pôde, escreve o agente do Ciex, que se refere a
dificuldades que Marighela teve para ocultar Lamarca.
Tal fato fez com que ele buscasse o exílio ainda em 1969,
como atesta o informe 354, de 30 de setembro. Essa informação
contradiz o senso de que Lamarca permaneceu clandestino em São
Paulo até meados de 70. Carlos Lamarca viajaria, no
correr dos próximos dias, com destino à cidade de
Montevidéu e daquela capital seguiria viagem para Cuba,
via Santiago do Chile e Praga. O informe 412, de 10 de novembro
de 1969, diz que em fins de out/69. O ex-capitão
Carlos Lamarca teria chegado clandestinamente a Montevidéu,
procedente de Livramento (RS), via Rivera (ROU). Da capital uruguaia,
Lamarca viajaria ainda de forma clandestina e, portanto,
com documentação falsa com destino a Santiago
do Chile e, daquela capital, para Praga e Havana, onde se encontraria
com sua esposa, informa o Ciex.
O informe 304, de 9 de setembro de 1970, também revela fato
inédito na trajetória de Lamarca. Segundo o documento
entre 20 e 28 de julho de 1970, um emissário dos Tupamaros
teria entrado em contato com Lamarca, vivendo no Acre, em
zona entre Rio Branco e a fronteira boliviana. E o informe
483, de 8 de dezembro de 1970, fala da sugestão de Cuba
de realizar um Congresso no Chile, que seria dirigido pelo ex-capitão,
numa espécie de balanço da luta guerrilheira e com
o intuito de propor a unificação de todos os movimentos
como estratégia para a revolução. O apoio de
Cuba a Lamarca fez, segundo os informes, com que elementos
da ALN, descontentes, passassem a VPR.
Enquanto esteve clandestino, Lamarca manteve forte atividade política.
Reuniu-se certa vez, no final dos 70, com Joaquim Cerveira e Apolonio
de Carvalho. O encontro, mediado por Onofre Pinto, pode ter ocorrido
no Chile, na Bolívia ou mesmo em Cuba. Outra reunião
secreta teria ocorrido em meados de 71, pouco antes de ser morto.
O informe 136, de 25 de maio, se refere à presença
no Chile de um ex-militar identificado como o ex-major de cavalaria
Hancho Trench, cassado em 64. Ele seria o responsável
por organizar visita a Santiago de Miguel Arraes e Carlos Lamarca.
O Informe 466 registraria ainda a inusitada calma instalada
entre os refugiados brasileiros depois da morte de Lamarca.
Aderval Alves Coqueiro - Operário, integrou PCB, PCdoB e
MRT Morto
A morte de Coqueiro em fevereiro de 1971 foi episódio marcante
no meio dos asilados, pois instaurou a desconfiança e troca
de acusações. O relatório 177/72, por exemplo,
mostra que o ex-coronel Joaquim Alves Cerveira chegou a ser responsabilizado
pela baixa. O agente do Ciex garante que Cerveira nada tem
a ver com a morte de Coqueiro, já que o entregara no Uruguai
com toda segurança. Em reação, Cerveira
exige da Val-Palmares explicações sobre
a execução de Coqueiro. Relata que se encarregou pessoalmente
de levar Coqueiro até a Argentina, onde ficou seis
dias sob cobertura dos Motoneros. Depois o levou ao Uruguai,
entregando-o a Luis Heron Paixão de Araújo, que se
incumbiu de levar Coqueiro a Porto Alegre, de onde seria transferido
ao Rio de Janeiro. Ali deveria ser escondido num aparelho nas Laranjeiras.
O relatório de sua morte consta que ele teria voltado para
seu apartamento no Cosme Velho, onde seria morto 20 dias depois.
Ângelo Pezzuti da Silva - Psiquiatra, integrou VPR, Colina
e Polop Morto
Pezzuti foi dirigente da VPR e, por isso, teve sua vida pessoal
devassada pelo Ciex. Sua presença é registrada
no Chile em 1971, depois de ser monitorado em sua passagem por Cuba
e Argélia. Chegou a Santiago, o terrorista brasileiro
Ângelo Pezzuti da Silva, em companhia da também terrorista
brasileira Maria do Carmo Brito (Sara, Lia), ex-esposa de Aldo Sá
Brito. Os marginados pertencem aos quadros subversivos da VPR-Palmares
e, viajaram ao Chile, para contatos com João Lopes Salgado
(Dino), José Araújo da Nóbrega (Alberto) e
Joaquim Pires Cerveira (conhecido em Santiago pelo codinome de Walter).
O informante avalia que a presença dos citados terroristas
é pouco conhecida no meio de asilados brasileiros radicados
na capital chilena. E detalha a vida pessoal de Pezzuti. Aproveitando
sua estada em Santiago, Pezzuti e Maria do Carmo se casaram em 27
de outubro de 1971. Uma das últimas menções
a Pezzuti, em vida, ocorre no informe 538/73, relação
dos asilados brasileiros que, depois do golpe de 11 de setembro,
receberam salvo-conduto para diversos países. Pezzuti está
na relação do Panamá.
James Allen da Luz - Estudante, Integrou VAR-Palmares Desaparecido
Allen da Luz, segundo o documentos do Ciex, teve uma trajetória
bastante polêmica. Recrutado por Joaquim Cerveira e Apolônio
de Carvalho, e um dos líderes do seqüestro do avião
da Cruzeiro do Sul, desviado para Cuba. Com movimentação
intensa no meio asilado, desapareceu deixando para trás muitas
dúvidas. Foi identificado como elemento perigoso desde 1969,
quando estava refugiado no Chile. Pressões do Itamaraty,
inclusive, levaram o governo chileno a suspender seu asilo em 11
de junho daquele ano, como consta no Informe 262. O informe 85,
de 19 de abril de 1971, é farto em detalhes sobre a entrada
de Allen Luz no Brasil. Estando no Chile, ele foi escoltado por
um representante de Carlos Figueiredo de Sá, de Santiago
e Buenos Aires, via Mendoza, e depois a Montevidéu. Esse
representante poderia ser Daniel de Carvalho ou Jasse Jane. Lá
foi encaminhado a Cerveira, responsável por um esquema para
colocar asilados brasileiros clandestinamente no Brasil com
apoio da embaixada de Cuba em Santiago e seu embaixador Inschaustegui.
O representante de Sá teria sido instado por Cerveira
a não demorar-se mais que 48 horas em Santiago, havendo partido
da capital chilena em 10 de março de 1971, acompanhado de
James Allen Luz, que ostentava então um frondoso bigode,
viajando primeiramente em limousine até a fronteira
com a Argentina, e da capital argentina de aliscafo até Montevidéu,
onde Allen Luz foi entregue a Carlos Sá que, por sua vez,
o encaminhou a Luiz Heron de Araújo. Allen Luz teria viajado
do Uruguai para o Brasil em 15/Mar/71, seguindo o itinerário:
Montevidéu-Livramento, Rio Grande do Sul até a localidade
de São Pedrito, onde permaneceu 24 horas, prosseguindo viagem
para Porto Alegre e da capital gaúcha diretamente para São
Paulo e posteriormente para o Rio de Janeiro, onde deveria ter chegado
a 19/mar/71. A tarefa de Allen da Luz no Brasil seria a contatar
elementos da VPR e fazer levantamento para um próximo
seqüestro. Em março de 1973, o informe 114 levanta a
hipótese inédita de que Allen tenha sido justiçado
por companheiros ou desmobilizado pelos militares, recebendo nova
identidade. Não existem mais dúvida, entre os
asilados brasileiros em Santiago, de que o Cabo Anselmo e James
Allen Luz sejam agentes policiais, havendo contra Anselmo ordem
de execução.
Joaquim Pires Cerveira - Ex-militar, integrou FLN e MR-8 Desaparecido
Até agora pouco se sabe da atuação do ex-coronel
Joaquim Cerveira, relegado a um papel menor na memória da
resistência armada. Ele é identificado como uma espécie
de braço-direito de Brizola na Frente de Libertação
Nacional, dissolvida em 1970, data de sua primeira prisão.
Ele foi banido naquele ano, e depois disso passaria a integrar as
filas do MR8, informação inédita, que se soma
ao fato de que Cerveira chegou a ser eleito pelo regime cubano para
liderar nova tentativa de uma guerrilha rural. De fato, os informes
do Ciex dão conta de uma movimentação incessante
de Cerveira, com colaboração da esposa Lourdes, na
estruturação de uma ação contra o regime
militar, especialmente a partir dos anos 70.
Cerveira é citado no Informe 483, de 8 de dezembro de
1970, tendo convencido o presidente cubano, Fidel Castro, a permitir
que todos os brasileiros de Cuba fossem escoados para o Chile, onde
se reuniriam com outros provenientes da Argélia. O plano
de ataque incluiria levantamento de todos os quartéis de
fronteira, do Acre até a Bolívia. Já
se encontraria em Cuba o levantamento da base da Marinha brasileira
localizada em Corumbá, informa. Também haveria
levantamento sobre a vida privada do general Ernesto Geisel.
O informe 85, de 19 de abril de 1971, confirma como Cerveira
se tornou importante para o regime de Cuba, que não
ajudou Jefferson por não confiar nele. Cerveira
recebeu recursos financeiros e autorização para recrutar
gente em Cuba, relata. Como é do conhecimento
da comunidade, Cerveira tem sido apontado como o líder
militar escolhido pela DGI cubana para chefiar a guerrilha
rural no Brasil. Nessa qualidade, receberia assistência
técnica de elementos cubanos notadamente Fermin
Ravello e possivelmente de brasileiros treinados em Cuba
como Thalles Fleury. O círculo de Cerveira em Santiago
é bastante fechado, não permitindo fácil infiltração,
avalia o Ciex.
Há vários informes com detalhes sobre atividades de
Cerveira ao longo de 1972, inclusive amontagem de uma base em Arica.
O informe 033/72 traz balanço geral dos movimentos subversivos
no Chile e classifica, segundo sua força e capacidade de
influência no Brasil, em primeiro o de Cerveira constituído
por elementos do MRT, FLN, Ex-Colina, VPR e Val-Palmares. O informe
657/72, mostra que o Ciex tinha o endereço de Cerveira em
Santiago. A última referência a ele com vida está
no informe 635, sobre encontro com Cândido Aragão em
Buenos Aires. Lá, Cerveira desapareceu após ser preso.
Vítor Luiz Papandreu - Ex-militar, integrou grupo cerveira
- Desaparecido
Há dezenas de referências a Papandreu no arquivo secreto
do Ciex. Na maior parte delas, ele aparece junto a Joaquim Pires
Cerveira. Identificado como perigoso por ter sido um dos seqüestradores
do vôo do México que foi desviado a Cuba, Papandreu
foi extenuamente monitorado. O informe 483 de 1970, por exemplo,
registra sua presença em Montevidéu e traça
seus passos anteriores por Cuba, Techoslováquia, Argélia,
Paris, Chile e Buenos Aires. O percurso Chile/Buenos Aires
teria sido feito em avião da BUA; o percurso Buenos Aires/Montevidéu
em avião da Arolíneas Argentinas, no dia 28/nov/70;
na capital argentina, o marginado teria apenas se deslocado do aeroporto
de Ezeiza para o Aeroparque, onde teve sua passagem da BUA endossada
para Aerolineas manobra que visaria a fazer crer que o marginado
procedia originalmente de Buenos Aires. Estaria Papandreu viajando
muito de passaporte estrangeiro falso, provavelmente espanhol,
escreveu o agente.
Papandreu, segundo os informes, faria parte do esquema de
escoamento de brasileiros de Cuba para o Brasil, junto a
Onofre Pinto. O informe 020, de 20 de janeiro de 1971, registra
a viagem de Papandreu ao Brasil. Ele teria ingressado em território
brasileiro, procedente do Uruguai, via Rivera, em 30 de dez/70.
O marginado teria contado em Rivera com o apoio e a cobertura
de Breno Burman, refugiado brasileiro que reside naquela cidade
fronteiriça, à calle Molles, no. 58. Ele é
citado ainda no informe 190, de 23 de junho de 1971, sobre contato
com Amarilio Vasconcellos em dezembro de 70.
Wânio José de Mattos - Ex-policial, integrou VPR. Morto
O professor universitário Wânio José de Mattos
caiu na malha do Ciex em maio de 1971, quando seu nome foi incluído
na lista de brasileiros aos quais o governo Salvador Allende concedeu,
por sua conta, passaportes para que deixassem o Chile, uma vez que
o Itamaraty não quis fazê-lo. Embora Wânio fosse
considerado por muitos asilados como um sujeito de confiança,
no informe 100, de fevereiro de 1973, ele é arrolado entre
os suspeitos, por parte da direção da
VPR, por supostamente dar cobertura ao Cabo Anselmo. De fato, Wânio
foi preso pela polícia chilena logo depois do golpe de Estado
liderado pelo general Augusto Pinochet. Por muito tempo se pensou
que ele teria sido fuzilado no Estádio Nacional, como registra
o informe 33, de 1976. No documento, há alusão a um
esquema que envolveria suposto apoio dos militares brasileiros naquele
golpe, e que o tenente-coronel Cyro Etchegoyen teria inclusive ordenado
a execução de Wânio ao lado de Takao Amano e
Onofre Pinto.
O informe 656, de 31 de dezembro de 1973, é um dos mais importantes
da coletânea, pois revela que o Itamaraty foi informado da
morte de Wânio meses depois de sua prisão. Mesmo assim,
esse fato foi ocultado por quase duas décadas até
que o próprio governo chileno o confirmasse. A íntegra
do texto: Em anexo, fotocópia de nota do Ministério
das Relações Exteriores do Chile e de certificado
médico de defunción, que informam sobre o falecimento
do asilado brasileiro Wanio José de Mattos, ocorrido em 16
de outubro de 1973. Não foi possível localizar
o anexo, que continua guardado no arquivo secreto do ministério.
Há ainda outros informes que demonstram como o Ciex perseguiu
Wânio, e que essas informações facilitaram sua
prisão por parte das autoridades chilenas. O informe 159,
de 27 de março de 1973, mostra que o agente teve acesso a
apontamentos de Wânio, nos quais encontra endereços
de dois apartamentos, um na praça Julio de Mesquita, em São
Paulo, e outro na Avenida Copacabana, no Rio, acompanhado de um
número de telefone. Os referidos endereços podem
ser quentes. No catálogo do Rio, figura sob o mesmo endereço
o nome de Mario Rogério Antonelli, ressalta o informe.
Onofre Pinto - Ex-militar, integrou VPR. Desaparecido
Onofre foi um dos participantes do grupo dos 15, responsável
pelo famoso seqüestro do embaixador norte-americano Charles
Elbrick. Banido do país, ele perambulou por Cuba e Praga,
antes de se estabelecer em Montevidéu, com intenções
de voltar ao Brasil. Polêmico, os documentos do Ciex mostram
que ele chegou a ser homem de confiança de Carlos Lamarca
e fez importantes contatos na Bolívia para a implantação
de um foco de guerrilheiros brasileiros lá. Apesar de
sua excelente reputação, Onofre seria expulso da VPR
acusado de acobertar um policial infiltrado, no caso,
ninguém menos que o José Anselmo dos Santos (o cabo
Anselmo).
O informe 100, de 16 de fevereiro de 1973, registra com detalhes
o episódio. A queda de elementos da VPR em Pernambuco
(janeiro/73) e a notícia de que José Anselmo dos Santos
é elemento infiltrado lançaram os refugiados brasileiros
no Chile ligados àquela organização terrorista
em grande desorganização, estabelecendo entre os mesmos
um clima de desconfiança e suspeita. Em conseqüência
do clima criado, o grupo de Maria do Carmo Brito e Angelo Pezzuti
expulsou Onofre Pinto sob a acusação de que este acobertava
um policial infiltrado (Anselmo) e elementos suspeitos, diz
o texto. Onofre era então o representante da VPR no Uruguai,
em substituição a Luiz Heron da Paixão, segundo
o informe 163/72.
Algumas curiosidades: O informe 292, de 16 de agosto de 1971, registra
a presença em Santiago da esposa do ex-deputado comunista
Lício Hauer e de Onofre Pinto, regressando ao Peru. Onofre
já teria em seu poder cerca de 15 a 20 mil dólares
e viajaria para La Paz entre 12 e 30/ago/71, informa o agente.
No informe 496 o informante do Ciex obtém de Onofre revelação
de que o seqüestro do embaixador suíço Giovanni
Bucher teria sido motivado principalmente pela prisão de
um estudante que sabe tudo acerca da nova escola de guerrilhas montada
por Carlos Lamarca no Paraná. O informe 162, de 27
de março de 1973, registra viagem de Onofre para a argentina
no dia 20 de março. É a última referência
direta a ele, antes de seu desaparecimento.
Aluísio Palhano Pedreira Silveira - Advogado, VPR -
Desaparecido
Palhano foi importante elo de ligação entre Leonel
Brizola e Fidel Castro. O relatório 427, de 17 de outubro
de 1966, mostra que cartas, trocadas entre eles, foram interceptadas
pelos agentes do Ciex ou tiveram seu conteúdo revelado por
terceiros. Na carta de Fidel, este aconselha Brizola a
desencadear a revolução armada em território
brasileiro, como etapa inicial para a expulsão do imperialismo
americano do Brasil, diz uma delas. Em outra, consta que Palhano,
a pedido de Fidel, solicita a Brizola o envio a Cuba de dois
elementos da inteira confiança, para coordenar, em Havana,
o I Congresso dos Povos da América Latina.
Palhano é identificado em Havana no informe 329 de 21 de
setembro de 1970, acompanhado de ninguém menos que José
Dirceu e Cabo Anselmo. Entre 10 e 20 de julho, registrou-se
a presença em Havana de Jefferson Cardin de Alencar Osório,
procedente da Argélia, onde entrou em contato com Joaquim
Pires Cerveira. Segundo o informe, Cardin teria entrado em
contato com Wladimir Palmeira e esposa, José Dirceu
de Oliveira, Victor Papandreu, Cabo Anselmo, Aloísio Palhano,
Aldezito Bezerra, James Allen Luz, Tânia Rodrigues Fernandes.
Os registros históricos até agora dão conta
de que Palhano foi preso e morto em maio de 1971, ao retornar clandestinamente
ao Brasil.
Carlos Marighella - Ex-deputado, ALN. Morto
Marighella foi um dos subversivos preferidos do Ciex.
A primeira referência a ele, disponível no arquivo
secreto, se refere à expansão da ALN no Uruguai. Uma
célula seria montada para treinar elementos provenientes
do sul do Brasil. Treinamento que incluiria programa de preparação
política e breve curso sobre explosivos, relata o informe
676, de 19 de novembro de 1968. Consta ainda que os irmãos
FRANCK e outro elemento, indicado como Leandro, também este
com curso feito em Cuba, estariam atualmente ligados ao deputado
Ariel Collazo, que, por sua vez, apoiaria o esquema de Marighella,
na base da estratégia recomendada pela OLAS. Os agentes
do Ciex antecipam os planos de Marighella de lançar, antes
do fim de 1968, a execução de um amplo plano de sabotagem
das linhas férreas brasileiras, bem como de setores vitais
para o comércio exterior do Brasil.
Já o informe 32, de 6 de fevereiro de 1969, descreve plano
de Marighella de trazer ao Brasil elementos treinados em Cuba e
no Uruguai. De Cuba viriam 20 brasileiros, pertencentes ao
movimento de Leonel Brizola. Paulo de Mello Bastos estaria integrado
nesse esquema, mantendo contatos com o elemento José Francisco
dos Santos, atualmente em Montevidéu e que estaria para ingressar
em território brasileiro. Collazo seria o contato
de Marighella em Montevidéu, segundo o documento, e prepararia
os brasileiros para ir a Cuba fazer treinamento de guerrilha.
Curioso o informe 469, de 23 de dezembro de 1969, a respeito de
outra versão para o assassinato de Marighella. Para o agente
do Ciex, tratou-se de versão tendenciosa sobre
a atuação da polícia e serviços de inteligência
brasileiros, que são acusados de torturar prisioneiros
políticos e de haver morto Marighella enquanto este caminhava,
montando posteriormente o episódio do VW para inculpar religiosos
dominicanos de traição. Estes teriam comparecido
normalmente ao encontro com Marighella, sendo presos ao tentar escapar.
Mesmo depois de sua morte, pessoas ligadas a Marighella continuaram
sendo monitoradas. O informe 353/76, denuncia que a ex-mulher montara
na Itália, juntamente com outros latino-americanos,
uma fábrica de documentos e passaportes falsos.
No futuro, pretende falsificar também dólares
americanos, aposta o agente. (CDS)
Mortos e desaparecidos
Aderval Alves Coqueiro; Aluísio Palhano Pedreira Silveira;
Ângelo Pezzuti da Silva; Antonio Benetazzo; Antônio
Guilherme Ribeiro Ribas; Antônio Henrique Pereira Neto (Padre
Henrique); Armando Teixeira Frutuoso; Aylton Adalberto Mortati;
Boanerges de Souza Massa; Carlos Eduardo Pires Fleury; Carlos Lamarca;
Carlos Marighella; Carmem Jacomini; Daniel José de Carvalho;
David Capistrano da Costa; Djalma Carvalho Maranhão; EDMUR
PÉRICLES CAMARGO; EDSON NEVES QUARESMA; ELSON COSTA; FLAVIO
CARVALHO MOLINA; FRANCISCO DE CHAGAS PEREIRA; FRANCISCO JOSÉ
DE OLIVEIRA; FREDERICO EDUARDO MAYR; GASTONE LUCIA DE CARVALHO BELTRÃO;
IARA IAVELBERG; JAMES ALLEN LUZ; JAYME AMORIM MIRANDA; JEOVÁ
ASSIS GOMES; JOÃO BATISTA FRANCO DRUMMOND; JOÃO BATISTA
RITA; JOÃO BOSCO PENIDO BURNIER (padre); JOÃO LEONARDO
DA SILVA ROCHA; JOÃO LUCAS ALVES; JOÃO MASSENA MELO;
JOAQUIM CÂMARA FERREIRA; JOAQUIM PIRES CERVEIRA; JOÃO
JOEL DE CARVALHO; JOSÉ MARIA FERREIRA DE ARAÚJO; JOSÉ
MENDES DE SÁ RORIZ; JOSÉ RAIMUNDO DA COSTA; LINCOLN
CORDEIRO OEST; LUIZ EURICO TEJERA LISBOA; LUIZ JOSÉ DA CUNHA;
MANOEL RAIMUNDO SOARES; MÁRCIO BECK MACHADO; MARCO ANTONIO
DA SILVA LIMA; MARIA AUGUSTA THOMAZ; MARIA AUXILIADORA LARA BARECELLOS;
MARIO ALVES DE SOUZA VIEIRA; MAURÍCIO GRABOIS; GUILHERME
PEREIRA DOS SANTOS; NELSON JOSÉ DE ALMEIDA; ONOFRE PINTO;
ORLANDO DA SILVA ROSA BONFIM JUNIOR; PAULO DE TARSO CELESTINO DA
SILVA; PEDRO VENTURA FELIPE DE ARAÚJO POMAR; RUY CARLOS VIEIRA
BERBERT; SOLEDAD BARRET VIEDMA (paraguaia); TITO DE ALENCAR LIMA
(Frei Tito); TULIO ROBERTO CARDOSO QUINTILIANO; VICTOR CARLOS RAMOS
DA SILVA; VíTOR LUIZ PAPANDREU; WÂNIO JOSÉ DE
MATTOS; WILSON SILVA
Edição de 23/07/07
O pai do serviço secreto do Itamaraty
Claudio Dantas Sequeira
O diplomata Manoel Pio Corrêa recebeu superpoderes de Castello
Branco para lançar cruzada de combate aos comunistas além
das fronteiras do Brasil.
O serviço secreto do Ministério das Relações
Exteriores surgiu da mente do embaixador aposentado Manoel Pio Corrêa.
Formado na Escola Superior de Guerra, o diplomata, de origem aristocrata,
não teve reservas ao encampar os ideais nacionalistas fermentados
por décadas entre os militares da Praia Vermelha, no Rio
de Janeiro. Na pele de executor da política externa do Brasil,
ele se lançou em uma cruzada contra o comunismo, convicto
de que se tratava de um mal a ser extirpado da sociedade. Sua eficiência
lhe rendeu admiração e respeito na caserna, e a alcunha
de troglodita reacionário por parte dos asilados
políticos brasileiros. Hoje, aos 90 anos, um lúcido
Pio Corrêa vive sua rotina tranqüila como consultor privado.
Em conversa com a reportagem por telefone, Pio Corrêa
que vive e trabalha no Rio de Janeiro admitiu ter sido o
autor intelectual e material do Centro de Informações
do Exterior (Ciex). Isso saiu de mim, sim. Da minha cabeça,
afirmou. Como o Correio revelou na edição de ontem,
o Itamaraty operou entre 1966 e 1985 uma agência de informações
dedicada a monitorar os opositores do regime militar no exterior.
Pio Corrêa, no entanto, preferiu não seguir adiante
nas explicações, com o argumento de que certas
histórias não devem ser contadas.
Há 12 anos, Pio Corrêa decidiu registrar indiretamente
as suas histórias, mesmo sem explicitá-las, num livro
de memórias. A obra O mundo em que vivi foi elaborada para
parecer apenas um extenso relato de suas atividades como diplomata.
Mas algumas informações, quando cruzadas com o arquivo
secreto do Ciex e depoimentos de ex-membros do serviço, compõem
um quebra-cabeça revelador.
Dona Odette
Uma das informações mais relevantes do livro está
na página 580, em que Pio Corrêa lembra quando, em
1959, substituiu a embaixadora Odette de Carvalho e Souza na chefia
do Departamento Político do Itamaraty. Dona Odette,
como era conhecida pelos colegas, entregou-lhe uma espécie
de tesouro pessoal: um arquivo com fichas de cidadãos, nacionais
e estrangeiros, envolvidos em atividades consideradas subversivas
durante as décadas de 1940 e 1950. Um precioso presente,
segundo Pio Corrêa. Quando deixei o departamento no
fim do governo Kubitschek, desconfiando, com toda razão como
se viu mais tarde, do que viria sob o governo seguinte, deixei esse
arquivo, consideravelmente aumentado, confiado a um oficial amigo,
que fazia ligação do então Serviço de
Informação e Contra-Informação (SFICI)
com o Itamaraty, admitiu o diplomata.
A relíquia, sem dúvida, inspirou Pio Corrêa,
que já se enamorara de informes e relatórios ao trabalhar
no Serviço de Documentação do Ministério
da Aeronáutica, no início da carreira. Fora do Itamaraty,
Pio Corrêa recebia duras críticas da imprensa de esquerda
e de deputados do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o que levou
Juscelino Kubitschek a pedir a exoneração do diplomata,
mas o então chanceler Horácio Lafer se recusou a ceder.
Cinco anos mais tarde, como o próprio Pio Corrêa conta
sem pudores, na página 814, ele apoiaria o golpe de Estado
contra o governo de João Goulart. Eu conspirava contra
o governo, e a vitória da Revolução de 31 de
março de 1964 representou a coroação de minhas
mais caras esperanças, escreveu.
Embrião
Imediatamente depois do golpe, o presidente Castello Branco decidiu
presentear o diplomata, nomeando-o como embaixador em Montevidéu.
Na companhia do coronel Câmara Senna como adido militar, os
dois formariam uma dupla dedicada a neutralizar articulações
contra-revolucionárias, especialmente por parte de Goulart
e Leonel Brizola naquele momento consideradas perigosas lideranças
de oposição. Juntos, o diplomata e o adido militar,
arquitetaram uma rede de contatos que incluía políticos,
militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros
e até comerciantes. Os contatos foram travados em seguidas
viagens pelo país, e o Uruguai acabou servindo de experiência
piloto para a criação do Ciex.
Esse tipo de visita foi muito útil, pois encontrei
nas polícias departamentais excelentes fontes de informação
e ocasionalmente algum tipo de cooperação ativa, extra-oficial,
disse Pio Corrêa no livro. Também fizeram dezenas de
incursões do lado brasileiro da fronteira, desde o Chuí
a Porto Alegre, passando por São Gabriel, Pelotas e Santana
do Livramento. Com freqüência, a dupla se reunia com
colegas do III Exército para trocar informações.
Ameaça externa
O trabalho era acompanhado por Golbery do Couto e Silva, o general
reformado que idealizaria o Serviço Nacional de Informações
(SNI). Cada vez que fui ao Brasil durante o período
janguista, nunca deixei de trocar impressões com amigos,
tanto das Forças Armadas como do meio civil, comprometidos
com a causa da resistência à marcha do esquerdismo,
escreveu.
A desenvoltura do diplomata no Uruguai lhe abriria ainda mais as
portas da carreira sob tutela militar. Nos idos de 1966, a ameaça
externa do comunismo ganhava fôlego, com a realização
em Havana da conferência que instituiu a Organização
de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América
Latina (OSPAAL) uma espécie de Internacional revolucionária
no Terceiro Mundo. Logo, Pio Corrêa seria nomeado secretário-geral
do Itamaraty, com superpoderes para fazer o que quisesse. E ele
não perdeu a oportunidade.
Diante da administração ausente do chanceler Juracy
Magalhães autor da célebre frase o que
é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil
, Pio assumiu o comando da Casa. E também da política
externa. Internamente, lançou uma caça aos diplomatas
que considerava pederastas, bêbados e vagabundos,
como diz no livro. Pio Corrêa teria sido, inclusive, o responsável
pelo afastamento do compositor Vinícius de Moraes da carreira
diplomática. No plano externo, decidiu reproduzir a bem-sucedida
experiência uruguaia a mais uma dúzia de países.
Redigiu e assinou então a portaria ultra-secreta que instituiria
o Centro de Informação do Exterior (Ciex).
A existência dessa portaria foi confirmada ao Correio por
meio de relatos de ex-membros do Ciex, mas o documento, por seu
caráter ultra-secreto, estaria praticamente inacessível,
confinado num imenso cofre localizado no subsolo do Itamaraty. Para
chefiar o serviço secreto em seu início, Pio Corrêa
chamou um de seus pupilos, o então secretário Marcos
Henrique Camillo Côrtes. Nos primeiros meses, o serviço
de inteligência da diplomacia funcionou de forma precária.
Os dados enviados pelas embaixadas eram consolidados em informes
datilografados em folhas comuns. Mais tarde, o Ciex passaria a trabalhar
com páginas timbradas e carimbos com a sigla da agência.
A saída de Castello Branco em 1967 não interferiu
nas atividades do Ciex. Pio Corrêa, prestes a se aposentar,
pediu remoção no ano seguinte para a embaixada brasileira
em Buenos Aires. Camillo Côrtes o acompanhou nos primeiros
meses, e logo foi enviado em caráter especial
a Washington com a missão de estreitar a colaboração
no setor de inteligência com a CIA. Durante alguns anos depois
de aposentado, Pio Corrêa seguiria como uma espécie
de consultor informal do Itamaraty. Depois, recebeu convites da
iniciativa privada, onde permanece até hoje.
Espiões na pele de diplomatas
Claudio Dantas Sequeira
Integrantes do Itamaraty que serviram à comunidade de informações
foram beneficiados na carreira pública, mas sofreram preconceito
dos colegas
Depois da análise de 20 mil páginas de informes secretos,
o Correio identificou a maior parte dos diplomatas que dirigiram
o Centro de Informações do Exterior (Ciex) ao longo
de 19 anos. Antes de chegarem ao posto máximo do órgão,
esses profissionais demonstraram sua eficiência
coordenando as atividades de perseguição política
em embaixadas brasileiras. Um requisito para integrar o Ciex era
ter o curso de planejamento estratégico da Escola Superior
de Guerra (ESG), no Rio de Janeiro, ou ter passado pelo treinamento
de agente na Escola Nacional de Informações (Esni),
em Brasília.
Diplomatas que trabalharam na comunidade de informações
contaram à reportagem que eram vistos com desdém e
preconceito pelos colegas. Nos corredores do ministério havia
uma anedota de que os diplomatas eram classificados em três
grupos distintos, segundo suas atividades. No primeiro grupo estavam
os chamados destiladores de quinta essência, geralmente
aqueles dedicados a temas jurídicos, de política internacional
ou defesa comercial. Ocupavam uma espécie de nível
superior na escala evolutiva da diplomacia.
O segundo grupo era formado pelos estivadores, diplomatas
lotados em funções de administração
na Secretaria de Estado. Esses funcionários, embora treinados
para o exercício da diplomacia, acabavam chafurdados em meio
a pilhas de papel, se transformando em meros burocratas. Ainda não
haviam sido criados os cargos de assistentes e oficiais de chancelaria,
e os próprios diplomatas tinham que carregar o piano da burocracia.
O terceiro e último grupo reunia o pessoal recrutado para
os sistemas de informação e contra-informação.
Esses diplomatas eram apelidados de lixeiros, numa referência
claramente pejorativa às atividades que exerciam. Na cultura
geral do Itamaraty, a espionagem era uma atividade baixa, sem glamour
e dignidade, especialmente se exercida sob uma ditadura. Por causa
do preconceito e da natureza da atividade de inteligência,
os agentes-diplomatas acabaram por se fechar numa restrita fraternidade,
que comportaria os membros da Divisão de Segurança
de Informação (DSI) do Itamaraty alguns com
passagem pelo Ciex , criado em 1967.
As mazelas, no entanto, eram compensadas por uma rápida ascensão
profissional. Depois de fazerem o trabalho sujo, os
diplomatas-agentes eram promovidos em menos tempo que os demais
e também enviados a postos importantes no exterior. Um exame
detalhado das fichas profissionais desses servidores, obtidas com
exclusividade pelo Correio, demonstra como o serviço secreto
serviu de atalho na hierarquia da carreira diplomática.
Cúpula
As atividades do Ciex podem ter passado despercebidas para a maior
parte do funcionalismo público e a toda uma sociedade, mas
não para a cúpula do Itamaraty. É de se esperar
que o ministro de Estado e o secretário-geral soubessem o
que se passava no 4º andar do Anexo I do ministério.
Enquanto respondia a determinações do SNI, o serviço
secreto diplomático também seguia as diretrizes da
política externa era como servir a dois amos ao mesmo
tempo.
Dessa maneira, grandes nomes da diplomacia, como os chanceleres
Antonio Azeredo Silveira (1974-79) e Ramiro Saraiva Guerreiro (1979-85),
foram cúmplices dos trabalhos do Centro de Informações
do Exterior. O mesmo ocorreu com Juracy Magalhães, que viu
o Ciex nascer, Magalhães Pinto (1967-69) e Mário Gibson
Barbosa (1969-1974). Guerreiro, antes de ser ministro, chefiou a
Secretaria de Estado, de 1974 a 78, despachando diariamente com
o diretor do Ciex.
Passaram pela Secretaria de Estado Jorge de Carvalho e Silva (1969-74),
Dário Moreira de Castro Alves (1978-79), Carlos Calero Rodrigues
(1984-85) e João Clemente Baena Soares (1979-84), que há
poucos anos integrou a Comissão de Notáveis responsável
por redigir o projeto de reforma das Nações Unidas.
Curiosamente, coube também a um secretário-geral a
decisão de preservar a memória do serviço secreto.
O embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que chefiou a Casa entre
1985 e 1990, salvou da destruição os 32 volumes
com mais de 8 mil informes que compõem o arquivo secreto
do Ciex. No alvorecer da democracia, o SNI determinou a destruição
de milhares de documentos da repressão, na tentativa de apagar
evidências e evitar revanchismos. Flecha de Lima
se negou a cumprir tal ordem.
Ex-agente na ativa
Guilbaud, que hoje atua na embaixada de Guiné Conacri: trajetória
no serviço secreto
Um intenso debate público no Senado em meados de 2006 quase
custou a nomeação do embaixador Jacques Claude François
Michel Fernandes Vieira Guilbaud para a chefia da embaixada em Guiné
Conacri. Surgiram então denúncias de que ele teria
sido um espião do regime militar. A polêmica provocou
o adiamento da sabatina e deu início a uma série de
gestões políticas nos bastidores. O diplomata alegou
que teria sido vítima da ditadura, perseguido a ponto de
ter de abandonar seu posto no Canadá, onde chegou a pedir
asilo político no início dos anos 80. Essa versão
garantiu sua anistia e reintegração ao quadro ativo
do Itamaraty em 2001. E acabou funcionando no ano passado.
Depois de algumas semanas, as acusações contra Guilbaud
foram consideradas inconsistentes e ele recebeu o aval dos parlamentares
para representar o Brasil no país africano. Ao pesquisar
no arquivo do Centro de Informações do Exterior, o
Correio descobriu que Guilbaud não contou toda a verdade.
Ele, de fato, foi um agente do serviço secreto diplomático
por quatro anos. O informe 001/79 conta sua trajetória, bem
como o recrutamento em 29 de março de 1974, e os motivos
que levaram a seu desligamento do Ciex em 1978. Guilbaud, segundo
o documento, chegou a chefiar a Base do Ciex em Santiago, Chile
(1976/77), e a de Lisboa, Portugal (1977/1978).
Na opinião da chefia do Ciex, Guilbaud careceu de capacidade
técnica para o exercício das últimas funções.
Revelou que submetido às tensões normais e inerentes
ao exercício de funções de informações
no exterior, não dispõe de condições
mínimas de resistência e equilíbrio emocionais,
o que lhe afeta o discernimento e a capacidade de julgamento e avaliação
de fatos, pessoas e situações, argumentou o
chefe do serviço secreto. Segundo ele, essas características
tornaram Guilbaud um alvo disponível para a oposição
ativa internacional.
Já Guilbaud diz que seu afastamento teve a ver com a descoberta
de um suposto caso de corrupção envolvendo a compra
do imóvel que serve até hoje de residência oficial
para os embaixadores do Brasil em Lisboa. Ele acusou, na época,
o então chefe do posto, general Carlos Alberto da Fontoura
considerado um linha-dura entre os militares de ter
se beneficiado da transação. Questionado pelo Correio,
Guilbaud afirmou que não tem mais as provas do desvio. (CDS)
A diretoria do Ciex
Confira os nomes de alguns diplomatas que trabalharam no Centro
de Informações do Exterior:
Paulo Sérgio Nery
Morreu em 1979, pouco tempo depois de deixar o serviço secreto.
Sua ficha funcional não pôde ser encontrada
Octavio J. de A. Goulart
Fez a ligação do Ciex com Washington até 1974.
Depois foi nomeado assessor do gabinete do ministro Azeredo da Silveira.
Em 1977, assumiu a chefia do Ciex, até então sob a
fachada da Assessoria de Documentação Exterior. Em
sua gestão a transformaria em Secretaria de Documentação
de Política Exterior (Sedoc). Em 1979, virou cônsul-geral
em Paris, onde acompanhou os núcleos de asilados políticos.
Seu último posto foi em Georgetown, como embaixador. Morreu
em 29 de dezembro de 2004
Marcos Henrique Camillo Côrtes
Tornou-se fiel amigo do diplomata Manoel Pio Corrêa ao servir
em Montevidéu, em 1965. A relação de confiança
entre ambos lhe garantiu a nomeação como primeiro
diretor-executivo do Ciex. Em 1968, acompanhou Pio Corrêa
a Buenos Aires para montar a estrutura do serviço lá.
No mesmo ano, foi enviado especialmente a Washington com a missão
de estreitar a colaboração no setor de inteligência
com a CIA. Voltou a Brasília em 1969 como oficial do Gabinete
do ministro de Estado. Em 1973, ficaria um ano auxiliando o diplomata
Octavio J. de A. Goulart na direção do Ciex, para
no ano seguinte voltar a Buenos Aires, agora como número
dois da embaixada. Em 1978 partiria para Camberra como embaixador,
acumulando nos anos seguintes as embaixadas de Wellington, Port
Moresby e Porto Vila. Depois de aposentado virou consultor da ESG,
e jura que o Ciex nunca existiu. Vive no Rio de Janeiro.
João Carlos Pessoa Fragoso
Começou a trabalhar para o Ciex em Montevidéu, em
1966. Dois anos depois foi promovido a assistente da Secretaria
Geral de Política Exterior. Seu nome consta num documento
secreto de 1969, que informa sobre sua substituição
no posto de diretor-executivo do Centro de Informações
do Exterior (Ciex) pelo segundo-secretário Paulo Sérgio
Nery. Fragoso virou chefe do Gabinete Civil do presidente
Médici. Cinco anos depois seria enviado à embaixada
no Vaticano, voltaria em 1977 como chefe do cerimonial. Seus serviços
ainda seriam úteis ao presidente Figueiredo, de 1981 a 1985.
Depois foi embaixador em Madri, Bonn e Bruxelas, passando três
anos na Secretaria de Relações com o Congresso e encerrando
sua privilegiada carreira como embaixador em Atenas. Desfruta a
aposentadoria em seu sítio em Barra do Piraí, município
do interior fluminense.
Agildo Sellos de Moura
Serviu em Santiago do Chile de 1967 a 1971, quando passou a assessor
do Ciex (na época Adoc). Um ano depois assumiria a chefia
da Divisão de Segurança de Informações
(DSI) do Itamaraty, onde permaneceu seis anos. Logo sua carreira
decolou. Foi conselheiro na missão junto à Unesco,
em Paris, e serviu nos consulados gerais em Miami e Montreal. Em
1987, ficou à disposição do Estado Maior das
Forças Armadas, no Rio, e acabou como chefe da divisão
de arquivo. Encerrou sua carreira como embaixador em Porto of Spain.
Vive no Lago Sul, em Brasília.
Sérgio Damasceno Vieira
Foi recrutado pelo Ciex apenas em 1968, quando serviu
como segundo-secretário em Varsóvia, que foi usada
como escala pelos brasileiros que faziam treinamento de guerrilha
em Cuba. A eficiência no monitoramento dos opositores
lhe valeu a chefia de uma assessoria especial da DSI
do Itamaraty, onde ficou por três anos. Serviria ainda em
Lisboa e Caracas, antes de voltar a Brasília em 1981, para
assumir a direção da DSI. Antes de se aposentar, Vieira
foi embaixador em Kuala Lumpur e Guatemala, além de inspetor-geral
na Secretaria de Estado. Recém aposentado, voltou para Salvador,
sua terra natal.
Carlos Luzilde Hildebrandt
Foi um dos últimos chefes do Ciex. Passou pelas embaixadas
da Bulgária e de Portugal. No informe 246 de 17 de dezembro
de 1979, ele faz uma avaliação negativa das atividades
de monitoramento externo ao chefe do Serviço Nacional de
Informações. Na época, o SNI estava inchado
e perdera muito em eficiência. Essa crise se refletiu no Ciex,
e Hildebrandt aconselha uma revisão do Plano Nacional de
Informações, a otimização dos esforços
e a redução da burocracia.
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